Eu
aprendi a gostar de futebol de pequeno. Meu primeiro contato marcante foi o
título de 2002. Acordava cedo – a Copa foi do outro lado do mundo – para ir
para a casa do meu avô acompanhar a Seleção com minha família.
E
vencemos. Eu lembro da festa, da felicidade, da união de um povo. Uma união que
nenhuma igreja, nenhum partido, nem música nem qualquer forma de arte (ou
esporte) consegue reproduzir.
Um
país de quase 180 milhões de pessoas gritava em uníssono: “PENTACAM-PEÃO!"
Depois,
muitas alegrias com o tricolor paulista, em sua grande época (2005-2008), consolidaram
meu amor ao futebol.
Alemanha
Hoje
assisti ao jogo da Alemanha em uma televisão na nossa sala de controle, ao lado
de meus amigos e colegas de trabalho, no Itaquerão. Onde o Brasil ven-ceu a
Croácia na abertura da Copa.
Surreal.
Não sabia se era um pesadelo ou se realmente o time pelo qual eu tanto torci
levava cinco gols em 10 minutos. Atrás de mim, meu chefe alemão sorria, feliz
com seu país, mas respeitando profundamente o nosso pesar.
Assim
como a seleção alemã respeitou o Brasil durante os 90 minutos. Em ne-nhum
momento subestimaram, esnobaram ou zombaram dos brasileiros. Pelo contrário,
permitiram que Oscar fizesse o gol de honra para os canarinhos, para depois
voltarem a marcar corretamente.
Culpados
Procurar
culpados é desgastante e inútil, além de falta de respeito com os atle-tas. Fred
teve oportunidades e não conseguiu converter – assim como todos os outros. Isso
não muda o fato de que ele chama a marcação para si na área e li-bera espaço
para os demais.
Hulk
não fez uma grande partida hoje – mas nas últimas duas foi um dos des-taques do
time, e ninguém pode estar 100% sempre. Dante fez o que precisava ser feito;
infelizmente, a Alemanha encontrou o caminho do gol e aproveitou os minutos de
desequilíbrio brasileiro.
Thiago
Silva levou um cartão bobo contra a Colômbia, e foi um desfalque impor-tante;
mas até então, sempre um dos melhores em campo, quando não o melhor.
Felipão
errou. No jogo e na escalação. Mas se não fosse ele, nem semifinais te-ríamos
alcançado, com certeza. Dê valor na comissão técnica brasileira. Se eles não conseguiram
resolver, não há quem pudesse.
Futebol
é isso. Quando se entra em campo, sabe-se do risco de derrota. Podiam fazer
como o Tigre, que na final da Sul-Americana de 2012 se recusou a entrar em campo
contra o São Paulo. O Brasil, mesmo perdendo de cinco, voltou com fome de gols,
esbarrando em Neuer.
Destaques
Melhor
é consagrar os heróis da nossa Copa. Os sete gols indefensáveis que Júlio César
levou hoje não apagam os dois pênaltis que conseguiu pegar contra o Chile.
Aliás, mesmo contra a Alemanha teve uma atuação incrível.
Neymar
não precisa se tornar um mártir pela mídia para ter seu mérito reco-nhecido. Ele
jogou bem, e ainda terá mais copas pela frente para provar seu ta-lento. Fez
falta hoje, com certeza.
Os
dois jogadores símbolos da Seleção dessa geração com certeza estão ali no
fundo, perto do gol. Thiago Silva, o capitão, e David Luiz – capitão. Sem eles
não teríamos ido tão longe.
São
os melhores zagueiros da Copa em minha humilde opinião, assim como Tim Howard,
dos EUA, é o melhor goleiro (fiz essa comparação para não dizerem que estou
puxando o saco do Brasil).
A
grande vergonha do dia: fora de campo
Ao
entrar na internet, vi as coisas horríveis que aconteceram pós-jogo. Brigas,
prisões, ferimentos, depredações, vandalismo e a mais nojenta de todas: a
quei-ma da bandeira do Brasil.
Como
escrevi no começo, o futebol é uma paixão para mim. Pesquiso, acom-panho,
discuto, jogo. Mas é um jogo, e eu encaro como tal. Ri das piadas dos alemães
hoje no estádio, encarei com tristeza, mas sem raiva. Foi um jogo limpo. Um
jogo.
Sinto
muita pena de quem encara o Brasil apenas pela ótica da Seleção. Somos muito
mais que futebol, isso é apenas uma parte de nossa enorme e diversi-ficada cultura.
Somos o povo mais miscigenado do mundo. Nos damos bem em tudo que tentamos,
sempre há um brasileiro que se destaca nos campos das artes, dos esportes, da
mídia...
Queimar
a bandeira é queimar tudo isso. Ela é o símbolo máximo da nação, a síntese do
país. Quem fez isso, quem queimou ônibus, feriu outras pessoas, não merece ser
chamado de cidadão. Não merece ser brasileiro.
Muito
melhor ver as piadas no Facebook e no WhatsApp, uma mais criativa que a outra.
Isso sim é o jeito brasileiro de encarar os problemas. Com graça, alegria, inovação.
Com a capacidade de amenizar o choque, de fazer rir mesmo em um dia tão triste.
A
Copa ainda é aqui. Nós podemos fazer melhor que isso.
De tão acostumado a vencer, o brasileiro ainda não aprendeu a perder?
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